Pular para o conteúdo principal

Sex Education, 1ª Temporada (2019) - 'Assuntos tristes podem ser abordados de forma alegre'

Netflix impressiona mais uma vez, apesar dos mesmos atalhos de sempre.


Mais uma série Netflix acaba, e mais uma com aqueles finais que deixam margem pra uma segunda ou terceira temporada, que provavelmente sugarão nosso dinheiro e noites de sono. Mas apesar de soar como todas as outras, não se engane: Sex Education é, de longe, a melhor coisa que o serviço de streaming mais popular do mundo criou no últimos anos.

Desde o elenco extremamente simpático as abordagens precisas, Sex Education acerta em tudo. Inclusive, na forma natural que quebra paradigmas dentro dos próprios paradigmas. Desde o aluno popular ao fracassado protagonista, todos por si só já estão fugindo dos tabus que muitas outras recriações mentirosas da adolescência (incluindo as da própria Netflix) não chegam nem perto de, ao menos, tentar. É uma chuva de inclusão a cada episódio. E mesmo as intrigas mais forte da trama não te deixam com dores de barriga de ansiedade e soam leves como um dia comum. E apesar dessa leveza, é impossível não ter vontade de, após começar o primeiro episódio, terminar a temporada na primeira noite.

Asa Butterfield já é conhecido por outras produções grandiosas, como A Invenção de Hugo Cabret, Ender's Game e O Lar das Crianças Peculiares. Mas em Sex Education é notável o quanto o tempo só lhe fez bem e o quanto seu personagem, apesar de propositalmente apático, consegue naturalmente ditar o ritmo de cada episódio. Dentre os destaques também está Gillian Anderson, a eterna Dana de Arquivo X, que mostra o quão versátil pôde se tornar com os anos, quando faz a mãe sensual e super protetora do protagonista. A surpresa, claramente, é Eric, o primeiro papel de destaque da carreira de Ncuti Gatwa. O talentoso ator de descendência africana rouba a cena e consegue ir de alívio cômico a estopim dramático em poucos frames. E o mais incrível é que toda essa simpatia não se restringe a apenas estes três citados. Todo e qualquer personagem, dos figurantes aos atores com mais tempo de tela, soam tão naturalmente que parecem pessoas da nossa escola, que podem nos odiar por sermos nerds ou nos adorar por sermos populares. São atuações simples e precisas, que soam muito comuns apesar de estrategicamente estereotipadas.

A atmosfera oitenta/noventa, que está super na moda, não entra em conflito com o fato da série se passar nos tempos atuais. Muito pelo contrário: Os figurinos, cenários e até mesmo a paleta de cores nos remeterem a décadas passadas, apesar de tudo se passar no hoje, é um reflexo direto do que vivemos atualmente, com a volta do vintage retrô nonsense e sem a mínima repudia de apostar em cores delirantes e discos de vinil do The Cure.

Nota: 10

Sex Education é um deleite para os olhos, um soco no estômago para os ouvidos, e um caloroso abraço para as minorias. Fazia um tempo que a Netflix não acertava em cheio, e dessa vez é preciso admitir que cada detalhe minucioso da criação e confecção dessa série, definitivamente, valeu a pena.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Capitã Marvel (2019) - 'Girl Power exala!'

O mais forte dos Vingadores é uma mulher. A espera acabou, e enfim temos um filme solo de uma heroína digna de tal. Apesar de ser uma história difícil de adaptar, a origem foi muito bem mostrada e não deixou pontas soltas. Pelo contrário: Aparou as pontas que estavam confusas. A fórmula Marvel é colorida, cômica e de fácil digestão. Capitã Marvel é prova disso. Mas, estranhamente, parece que o filme foi feito para a fórmula, e não o contrário. O roteiro permite as piadas e desfechos intrigantes como há tempos não se vê em uma produção da empresa, que parece ter aprendido a medida certa entre graça e poder depois de Thor: Ragnarok. Mas, como todo bom filme de herói, Capitã Marvel tem seus defeitos. Boa parte da trama é desenvolvida no espaço, usando e abusando de maquiagem, ponto alto do longa, e CGI, ponto baixo. Por vezes, a computação gráfica era tanta que ficou difícil de entender o que estava acontecendo, principalmente quando ela usa o uniforme completo, á deixand...

A Morte Te Dá Parabéns 2 (2019) - 'Nem terror, nem comédia'

A continuação tenta fugir do estigma do suspense, e é exatamente esse o seu maior erro. É difícil qualificar um filme como esse, que aparentemente está completamente descompromissado em parecer ser bom e está muito mais preocupado em fazer rir da forma mais besteirol possível. Não foi meu caso. Pelo contrário: As atuações são tão enjoativas e sem nuances que fizeram um filme de pouco mais de uma hora e meia parecer não acabar. Essa sequência começa pouco tempo depois de seu antecessor. E de maneira quase infantil, nos explica tudo o que aconteceu anteriormente. O que de certa forma pode até soar inteligente se pensarmos que boa parte do público de filmes como esses são de pessoas que não se importam muito com roteiro e mais com as sensações que um filme que flerte com terror e suspense possa proporcionar. E a ideia não é ruim. Aliás, parece bastante interessante e atraente um filme de terror com temáticas como universos paralelos e viagens temporais. Mas esse é o único ace...

Corpo Fechado (2000) - 'Um herói (quase) real'

Nem todo filme de herói precisa ter ação Apesar da foto ser do inquestionável Samuel L. Jackson, não se engane: Bruce Willis entrega um de seus melhores e maiores papeis da carreira. 'Vidro' é a terceira parte da trilogia Shyamalan, o diretor controverso que reveza entre fracassos e sucessos. Bom, 'Corpo Fechado' aparentemente é um de seus maiores sucessos. A trama é incrivelmente brilhante e a lentidão do filme é quase poética, diferente da formula que as grandes empresas, como a Marvel, usam em seus longas. Até parece que a precariedade de artifícios técnicos deixa o filme ainda mais sensível. Não tem nenhuma grande luta, nenhum grande ápice, e ser um filme interessante mesmo sem esses atalhos é o que o torna tão especial. Bruce Willis, que não é o melhor ator do mundo, entrega o que de melhor ele poderia. Samuel L. Jackson estava a ponto de consolidar sua carreira e já mostrava que era digno do que viria a seguir. Mas a tensão vai além da atuação. ...