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Oscar 2019 - Contraditório, efetivo, acessível e surpreendente.

Após, de forma polêmica, abrir espaço para filmes mais populares, o Oscar pode começar a, enfim, deixar de ser cult a ponto de parecer seletivo.


A Academia gosta de polêmicas, e não foi diferente. Apesar dessa polêmica ter viés bom, não deixou de causar discussão. Afinal, Pantera Negra é bom o suficiente para ser indicado? Bohemian Rhapsody é uma cine biografia tão brilhante assim? Green Book é filme de negros feito pra brancos? Todas essas perguntas não devem ser respondidas tão cedo, mas podemos deixar que as estatuetas entregues falem por nós.

Apesar de ser uma tremenda surpresa, Olivia Colman mereceu o prêmio, desbancando a atriz mais vezes indicada sem ter vencido e que também fez um grandioso trabalho, Glenn Close. Já o prêmio de melhor ator, que consagrou Rami Malek, tem lá seus próprios dogmas pra resolver. Houve quem apostasse e cravasse que Christian Bale era o merecedor, já que o ator conhecido por suas camaleonices teria feito mais uma peripécia, e engordado horrores para viver seu personagem em Vice. Foram alguns os questionamentos sobre Malek: O quanto estava afetado no papel, sua dentadura que o atrapalhava um pouco, além do filme ser acusado não só de deturpar toda a cronologia de Freddie Mercury, mas também de ter em seu diretor um acusado de abuso sexual, que precisou abandonar o barco em meio as gravações e que deixou o filme com duas metades bem divergentes. Apesar de todos os percalços, Rami Malek foi, de fato, o ponto alto do longa, e o prêmio foi bem entregue. Mas Bohemian Rhapsody saiu da cerimônia como o mais premiado, e com status de superestimado. O que não devolverá os bilhões arrecadados em bilheteria, o tornando não o melhor tecnicamente, mas definitivamente, o filme de 2018.

Mas, a premiação deu a Green Book: O Guia o título de 'melhor', deixando os donos de apostas um pouco nervosos. O longa também abocanhou o 'melhor roteiro original', e causou alvoroço entre as críticas especializadas. A Academia fez o de sempre: Apostou no filme mediano. Vice causaria muitos problemas, por envolver diretamente a atual e conturbada política americana. Pantera Negra, Bohemian Rhapsody e Nasce Uma Estrela são bem cinematográficos, e estes são conhecidos por não serem os escolhidos. A Favorita e Infiltrados na Klan, talvez, merecessem mais. Mas o mérito não deve ser tirado, mesmo que Spike Lee não ache o mesmo: O diretor abandonou a sala, quando o longa foi anunciado.

E mesmo figurando na lista de injustiçados, a obra Roma, do mexicano Alfonso Cuaron, estava vencendo só por estar nas indicações. O filme, lançado e financiado pela Netflix, foi o primeiro longa 'fora do cinema' a ser indicado. E, além de ostentar a indicação dentre os melhores do ano, ainda pescou 'Melhor Direção', com estatueta entregue pelas mãos do compatriota e multi vencedor Guillermo Del Toro, 'Fotografia' e 'Melhor Filme Estrangeiro', premio esse que praticamente o retirou dos cotados a vencer a categoria principal.

E Lady Gaga vai precisar de uma nova prateleira, pois a cantora garantiu um Oscar por 'Shallow', em parceria com o genial Mark Ronson, e nas vozes dela e do surpreendentemente bom cantor Bradley Cooper. Aliás, é muito bom lembrar aqui que Nasce Uma Estrela, um dos mais indicados, não deve ser nomeado como o 'filme da Lady Gaga'. Apesar de ser extremamente justo dar o destaque ao papel feminino, e que foi feito extremamente bem feito, diga-se de passagem, mas é muito importante lembrar que essa foi a estréia de Cooper como diretor. Além disso, o cara é protagonista e um dos intérpretes da canção vencedora. Isso sem contar sua justíssima indicação ao prêmio de 'melhor ator' e, em contra partida, da total ignorância da acadêmia em esquecê-lo dentre os indicados a 'melhor diretor' (que ele muito provavelmente não venceria, mas merecia ter sido lembrado). De qualquer forma, a apresentação da música feita na cerimônia (a primeira a ser televisionada), foi o momento do momento. É incrível ver o quanto os dois tem uma química quase astral, praticamente sólida e romântica. Era como se os personagens do filme ainda estivessem ali. Tamanho entrosamento tem feito a internet shippar o novo possível casal, não sem razão.

Pantera Negra, merecidamente, conseguiu três estatuetas. Homem Aranha no Aranhaverso foi a melhor animação, e não poderia ser diferente. Vingadores: Guerra Infinita passou em branco, e Mahershala Ali e Regina King foram os coadjuvantes da vez, em um dos poucos momentos em que o 'achômetro' estava certo. O Oscar de 2019 teve suas surpresas e polêmicas, como sempre. Mas, foi de longe, um passo a frente dentro das produções cinematográficas. Que caminhada continue nessa direção.

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